Tudo começou durante uma conversa com minha irmã.

Estávamos falando sobre prisão, punição, culpa e pena de morte. Em determinado momento, ela compartilhou uma reflexão que me marcou profundamente.
Ela contou que já havia pensado sobre a pena de morte, mas que, em algum momento, passou a enxergar aquela questão de outra maneira: todo adulto, independentemente de quem tenha se tornado ou do que tenha feito, um dia foi uma criança.
Um bebê nos braços de alguém. Uma criança que estava apenas começando a descobrir o mundo, sem saber quem seria, quais caminhos percorreria ou quais escolhas faria.
E então surgiu uma imagem difícil de ignorar: como uma mãe ou um pai, olhando para seu bebê, poderia imaginar que aquela criança um dia seria alguém condenado à morte?
Aquela reflexão permaneceu comigo.
Passei a pensar nas histórias de pessoas que conhecemos, nos comportamentos que nos surpreendem e até naqueles que nos causam indignação. Diante de determinadas atitudes, comecei a perceber que uma pergunta surgia antes de qualquer julgamento:
Como essa pessoa se tornou quem é?
O que aconteceu ao longo de sua vida? Quais experiências, relações, escolhas e circunstâncias contribuíram para formar aquela pessoa?
Mas essa inquietação não se limitava aos outros.
Quando olhava para minha própria história, percebia que eu também havia mudado. Ideias que antes defendia já não faziam o mesmo sentido. Coisas que considerava verdadeiras passaram a ser questionadas. Minha maneira de compreender o mundo, as pessoas e a mim mesmo havia se transformado.
E, se eu já fui diferente de quem sou hoje, o que exatamente fez de mim a pessoa que sou agora?
Foi assim que uma pergunta começou a ganhar força:
Como nos tornamos quem somos?
E, quanto mais eu pensava sobre isso, mais percebia que essa questão nos conduzia a outra, aparentemente mais simples, mas talvez ainda mais difícil:
Quem sou eu?
Quando alguém nos faz essa pergunta, costumamos responder com nosso nome, nossa profissão, nossa história ou os papéis que desempenhamos.
Sou pai. Sou filho. Sou profissional. Sou aquilo que faço.
Mas será que essas respostas realmente dizem quem somos?
Se eu mudar de profissão, continuo sendo eu. Se minhas ideias mudarem, continuo sendo eu. Se deixar de exercer determinados papéis, quem permanece?
Foi dessa inquietação que surgiu a vontade de escrever este livro.
Não porque eu tenha encontrado uma resposta definitiva. Muito pelo contrário.
Resolvi escrever porque percebi que talvez a pergunta merecesse uma investigação mais profunda do que as respostas que costumamos oferecer.
Este livro nasce, portanto, de uma curiosidade sobre a condição humana, sobre nossas transformações e sobre os caminhos que nos fazem ser quem somos.
Não pretendo entregar ao leitor uma definição pronta de sua identidade.
Meu convite é que façamos essa investigação juntos.
Que possamos olhar para nossas histórias, questionar nossas certezas e tentar compreender não apenas quem somos hoje, mas como chegamos até aqui.
Porque talvez, antes de responder à pergunta “Quem sou eu?”, precisemos investigar outra:
Como me tornei quem sou?”



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